Bem-vindos. Neste blogue, têm lugar textos da autoria de membros da comunidade educativa da Escola Secundária de Vilela e apontamentos diversos sobre livros e literatura.

18
Jan 17

 

Aproximamo-nos do final do renovado Um Auto de Gil Vicente, agora com as cenas XIV a XIX. Na próxima entrada, os alunos do 11.º VC dir-nos-ão o que acontece às personagens.

 

Cena XIV (Parvo e Pompeu)

(a caminho de casa)

Parvo – Estou cada vez mais apaixonado! Agora Beatriz vai ser minha! Amanhã cedo, irei ao castelo e não deixarei que levem a minha senhora naquele galeão, e tu, meu desgraçado, vais-me ajudar!

Pompeu (irónico) – E tu, meu desgraçado, vais-me ajudar…

(Ficam os dois a maltratar-se, com gestos que têm o objetivo de parecerem violentos, mas que o não são.)

 

Cena XV (D. Manuel e D. Beatriz)

(no quarto da Infanta D. Beatriz)

Manuel – Então, Beatriz, que se passou? Que cousa foi aquela? Bernardim Ribeiro disfarçado de moura?

Beatriz – Meu pai! Não sei que faço agora! Estou apaixonada por Bernardim, não quero outro que não ele, ambos morremos de amores um pelo outro! É mais forte do que eu, meu pai. Não consigo controlar este sentimento. Mas nenhum de nós pode cair na tentação de consumarmos este nosso amor.

Manuel – Beatriz, sabeis que não há nada que possa fazer por vós.

Beatriz – Eu sei, meu pai! Mas se pudésseis evitar a partida deste galeão, ficar-vos-ia eternamente grata.

Manuel – Nunca, Beatriz! Basta! Não posso mais ouvir isto! É o teu fado, minha filha! Tereis que ir!

(D. Manuel abandona o quarto enquanto D. Beatriz chora desesperadamente.)

 

Cena XVI (Bernardim Ribeiro, Chatel e Duque de Sabóia)

(nos jardins do castelo)

Bernardim – Chatel! Meu querido e carismático Chatel!

Chatel (assustado) – Bernardim? Mas que coisa é esta? Mas… Mas vós estáveis morto.

Bernardim – É uma longa história. Preciso que me ajudes a ir naquele barco! Preciso matar o Duque de Sabóia, e ir naquele barco. E quando lá chegar, disfarçar-me-ei de Duque, casar-me-ei com D. Beatriz e serei feliz para sempre! Preciso da vossa ajuda!

Chatel – Não! Sou secretário do Duque de Sabóia, não posso cometer tal cousa. Sou fiel, não posso trair o Duque, o meu reino, não! Não!

Bernardim – Se vós me ajudardes, recebereis uma boa recompensa… Quando chegar a Sabóia, dar-vos-ei muito dinheiro, podereis viver bem, eu prometo, mas ajudai-me!

Chatel – Deus me perdoe tal traição, tal atitude vergonhosa… Amanhã, ao nascer do sol, o barco parte para Sabóia… Vinde cedo, de madrugada e pôr-vos-ei no convés, nunca ninguém irá desconfiar.

Bernardim – Ah! Devo-vos a vida. Assim o farei. Tudo o que desejo é ficar com minha amada Beatriz! Mas… E então o duque? Que faremos?

Chatel – Deixai comigo, Bernardim. Garanto que amanhã o duque não será impedimento.

 

(Durante a madrugada, Chatel vai ao quarto do Duque de Sabóia, e, com uma almofada, asfixia-o; esconde o corpo na cave do castelo, por debaixo de muitos sacos, para que ninguém desconfie, e fica assim concluído o trabalho de Chatel.)

 

Cena XVII (Paula Vicente, D. Beatriz, D. Manuel, Chatel, Parvo e Pompeu)

Paula Vicente – E chegou o grande dia, Beatriz! Vai ser duquesa de Sabóia!

Beatriz (aparte) – Antes não o fosse.

Manuel – Que dizeis, minha filha?

Beatriz – Meu pai, desabafos, suspiros de infelicidade, ah! Mas que fado triste é o meu.

Paula Vicente – Beatriz, vou sentir muitas saudades, mas eu sei que ireis bem, que Deus vos acompanhe, minha estimada amiga. (Abraçando-a, retira-se.)

 

Cena XVIII (D. Beatriz, D. Manuel, Chatel, Parvo e Pompeu)

Beatriz – Meu pai… (soluçando)

Manuel – Minha filha, minha amada filha, não é a última despedida. Senhores, nós, os que ficamos em terra, deixemos repousar os navegantes; que já pouco lhes fica para isso. Conde de Vila Nova, escuso de encomendar-vos cuidado: sempre fostes bom servidor. Vamos, senhores. Minha filha, adeus, até um dia!

Dona Beatriz – Adeus, meu pai, meu amado pai! (soluçando)

Manuel – Esperem, mas e então onde está o Duque?

Chatel (atrapalhado) – Vossa alteza, o senhor Duque de Sabóia teve que partir de viagem durante a madrugada, problemas do reino, vossa alteza, sabe como é…

Manuel – Sei, sim, muitos deveres para com o nosso povo!

(Durante o diálogo entre o rei e Chatel, Parvo e Pompeu impedem a passagem da infanta no barco.)

Parvo – Aqui ninguém entra! A minha amada Beatriz tem que casar comigo, é o nosso destino, juntinho, cheios de filhinhos.

Pompeu – Cheios de filhinhos!

Beatriz – Foi ele que matou Bernardim Ribeiro! Foi ele, meu pai! Foi ele!

Manuel – Mas que ousadia! Saiam daqui agora!

Parvo – Ou me caso com Beatriz, ou parto com ela para Sabóia.

Pompeu – E eu também!

Parvo – Cala-te, criatura do inferno! Ficavas a rachar lenha com o Vicente da Fonte, que ficavas melhor! Calado, eras poeta! Então, vossa alteza, vou ou fico? Fico ou vou?

(El-Rei faz sinal aos guardas para prenderem os dois. Depois de oferecerem resistência, são presos e levados para uma cela.)

(Dona Beatriz beija a mão a el-Rei; o mesmo faz o conde de Vila Nova, damas e senhores da casa da infanta.)

 

Cena XIX (Povo, Bernardim)

(O galeão chega a Sabóia, onde o povo aguarda, entusiasmado por ver a futura duquesa. Está tudo pronto para o tão esperado casamento real.)

Povo – Viva a duquesa!

(Bernardim sai sem que ninguém repare.)

 

[Em cima: Retrato da Infanta D. Beatriz.]

publicado por escoladeescritores às 12:07

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