Bem-vindos. Neste blogue, têm lugar textos da autoria de membros da comunidade educativa da Escola Secundária de Vilela e apontamentos diversos sobre livros e literatura.

11
Jan 17

 

Apresentamos hoje a cena XIII do acto II do «novo» Um Auto de Gil Vicente, reescrito por alunos do 11.º VC.

 

Cena XIII (Bernardim, Gil Vicente, Parvo, Pompeu, Brígida Vaz e Pajem)

(Apenas sai Bernardim Ribeiro, levanta-se o pano do fundo e aparece a sala do trono, ricamente adereçada e iluminada. Bernardim, em trajo de moura, entra e encara com a infanta, fica suspenso algum tempo, põe a mão na fronte, depois no coração, e logo começa.)

Bernardim –  

        Quebrado está meu encanto

        Por outro poder mais forte;

        Torno outra vez à vida

        Para sentir a morte.

Gil Vicente – Perdeu-se! Perdeu-se: não é aquilo! (chega-se a Bernardim, e aponta-lhe baixo) Que diabo de versos são aqueles?

Parvo (aparte) – Aqui há cousa! Esta moura… Algo de errado não está certo!

Pompeu – Eu cá não vejo nada de errado. Aquela moira até é de bom porte!

Parvo – Seu tarado! Não estou disso, parece-me que não está certo, cheira-me que aquele rapazito das saudades anda metido nisto! (em tom desconfiado)

Bernardim (entusiasmando-se) –

        Viver que não era vida,

        Sempre o mesmo, sem mudança,

        Os desejos vivos sempre,

        E sempre morta a esperança…

Gil Vicente (aparte a Pêro Sáfio) – Endoideceu. Estou perdido! E meu auto, meu nome! E os Italianos! Deus se compadeça de mim. (exaltado) Vou empurrá-lo dali para fora.

Pêro Sáfio – Deixai-o, já agora; não vos deis por achado. Vejamos em que isto pára.

(Dona Beatriz parece inquieta, e olha significativamente para Paula, que encolhe os ombros.)

Bernardim (depois de algum tempo, como quem reflete) –

        Cuidei que maior tormento

        Não mandava à Terra o Céu:

        Há mais, há pior ainda,

        E em sorte me coube: é meu.

        Deste anel, que o talismã

        De minha fortuna encerra,

        Já que eu gozar não podia,

        E agora, entregá-lo assim,

        Agora obrigar-me o fado…

Gil Vicente – Já não há remédio: estou perdido. Mirem! Mirem com que cara está el-Rei!

(O Parvo levanta se rapidamente e interrompe a cena num tom elevado.)

Parvo – Parai! Parai já esta cousa, este…

Pompeu Este auto! Ah, santa ignorância!

Parvo – Calai-vos, Pompeia! Pompeu! Pompeia-Pompeu! Pomp… Olha, tu!

Pompeu – Olha tu…

Parvo – Quem está por debaixo desta máscara é Bernardim Ribeiro! (tirando-lhe a máscara) Olhem! Enganou- nos a todos! El-Rei! Prendam-no! Ele é um aleivoso!

(Os dois envolvem se numa luta acesa.)

Manuel (separando os dois) – Mas o que vem a ser isto, em minhas cortes? Seus aleivosos, desrespeitadores, não tendes vergonha de fazer estas figuras perante vosso rei?

(Bernardim Ribeiro e o Parvo fogem entre a confusão e continuando entre açoites. D. Manuel vai atrás deles.)

Brígida Vaz (seguindo o rei) – Manuelito, Manuelito! Não vos devíeis de preocupar com estas ocorrências, vamos seguir para nossos aposentos, eles hão de se entender, querido Manuelito.

(Da varanda real vem o pajem a correr.)

Pajem – El-Rei, el-Rei! Bernardim Ribeiro está morto! Joane o matou! Vinde!

Brígida Vaz – Meu Deus! Que cousa! Ah! (desfalece)

Manuel – Pajens! Acudam, acudam! Levem-no daqui. O nosso Gil Vicente desta vez não foi feliz no fecho do seu auto. Vamos, vamos voltar à sala do trono e ver as andanças, levem Brígida Vaz para os meus aposentos.

 

[Em cima: Bernardim Ribeiro, em escultura de mármore de António Alberto Nunes (1891).]

publicado por escoladeescritores às 11:34

Janeiro 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
12
13
14

15
16
17
19
20
21

22
23
24
26
27
28

29
30
31


mais sobre mim

ver perfil

seguir perfil

2 seguidores

pesquisar neste blog
 
Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

blogs SAPO