Bem-vindos. Neste blogue, têm lugar textos da autoria de membros da comunidade educativa da Escola Secundária de Vilela e apontamentos diversos sobre livros e literatura.

04
Jan 17

 

Na continuação do acto II, eis hoje as cenas XI e XII, em que o auto de Gil Vicente começa a ser representado na corte de D. Manuel I.

 

Cena XI (Gil Vicente, Atores, Atrizes e Pêro Sáfio)

(O auto inicia-se, enquanto, no camarim, se dão os últimos arranjos e fazem os últimos ensaios.)

Gil Vicente – Bem, bem. Júpiter? Onde anda Júpiter? Ah! Sou eu mesmo. (Em atitude, como quem entra em cena) Reúnam-se todos os atores! Vamos! Vamos! Já tarda!

Primeiro ator – Aqui estou.

Segundo ator – E eu!

Terceiro ator – Pronto.

Primeira atriz – Eis-me!

Segunda atriz – Estou pronta!

Gil Vicente – Excelente! Belas, galantes estais. Que viva toda a corte celestial! Como vêm guapos!

(Aparte, no decorrer da peça, contracenam Gil Vicente e Pêro Sáfio.)

Pêro (entrando em cena e declamando) –

        Humilho-me a vós, sagrado

        Júpiter. Que me mandais?

Gil Vicente (do mesmo modo) –

        Vós sejais mui bem chegado

        A estas Cortes Reais.

        Manda El-Rei de Portugal,

        Senhor do mar Oceano

        Sua filha natural

        Per conjunção divinal

        Pelo mar Meio-Terrano.

 

Cena XII (Bernardim, Paula Vicente, Ator e Pêro Sáfio)

(voltando de novo aos camarins)

Bernardim (tirando a máscara) – Incrível! Incrível o que se está passando em mim. Eu, nos passos da Ribeira, com estes trajos! Eu, diante toda a corte, representando um auto de Gil Vicente! Eu…

Paula – Se vos arrependeis, ainda é tempo!

Bernardim – Nunca! Se de outro modo a não posso ver! Oh! querida Paula, tu és de certo a minha providência. Bem acertaram o nome esta noite. Que seria de mim sem a tua proteção!

Paula – O mesmo que com ela. Amanhã parte a frota ao romper da alva. Que fareis?

Bernardim – Que me importa amanhã? Eu vivo para hoje, vivo para esta hora. Que se me dá a mim que acabe o mundo depois?

Paula (aparte) – Muito a ama!

(Pêro, apressado, interrompe o diálogo.)

Pêro – Providência, Providência? Paula! Meus pecados! Ainda de conversa!

(Bernardim permanece no camarim, passeando, lendo o papel que tem na mão.)

Bernardim – E eu hei de dizer isto! – Fazer estes trejeitos… Eu, diante de tanta gente! E para estudar isto de cor? Impossível! Quem me deu cabeça agora?

Ator – Senhora moura, senhora moura Tais! Depressa, depressa, que estais a entrar por instantes.

Bernardim – Vamos! Ânimo! E suceda o que suceder. Avante com a empresa.

 

[Em cima: Estátua representando Júpiter.]

publicado por escoladeescritores às 11:43

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