Bem-vindos. Neste blogue, têm lugar textos da autoria de membros da comunidade educativa da Escola Secundária de Vilela e apontamentos diversos sobre livros e literatura.

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Mai 17

 

A partir de uma situação de escrita criativa em sala de aula, a Ariana Moreira, do 9.º RB, produziu um texto que merece ser lido por todos quantos acompanham ou visitam o nosso blogue. Aqui o deixamos ao cuidado dos nossos sempre atentos leitores.

 

Se eu fosse um banco de jardim…

 

Dizem que «aeroportos já viram mais beijos sinceros do que casamentos, que paredes de hospitais já ouviram mais orações sinceras do que em várias igrejas» (autor desconhecido), e eu, um simples banco de jardim, conheço mais histórias do que todos os livros…

Ontem foi um dia muito cansativo... Logo pela manhã vieram as três gordas do costume incomodar o meu sono, cheguei mesmo a pensar que seria o meu fim! Felizmente, para mim, uma delas recebeu um estranho telefonema e levou as amigas consigo (chego mesmo a desconfiar que elas são agentes secretas disfarçadas de simples mulheres gordas para concluírem as suas missões).

Enquanto isso, as crianças pequenas e ingénuas brincavam nos baloiços do parque, ignorando o silêncio que habitava em mim…

O tempo passava lentamente, com um sabor amargo para as minhas tábuas, pessoas sem vida corriam com os seus retângulos luminosos nos dedos, num dia onde até o sol transpirava tédio.

O relógio da cidade tocou as sete horas da tarde, a hora a que finalmente o meu poeta chegava para me adormecer ao pôr-do-sol… Nunca soube o seu nome. Ele parecia ser uma criação do mar, com os seus olhos azuis, era como se as ondas de uma tempestade habitassem os seus olhos… Na sua calma característica, pegou na caneta azul, no caderno velho, e escreveu enquanto sussurrava:

– O meu coração pertenceu à mesma mulher durante cinquenta anos… Pena que Deus não tivesse permitido que ela me desse o seu… – e, à medida que foi dizendo isto, os tesouros que segurava nas suas mãos escorregavam para o relvado, os seus olhos fechavam-se e o seu corpo ficava cada vez mais frio e pesado.

Uma multidão começou a reunir-se, enquanto se ouviam diversas sirenes cada vez mais perto.

Parecia que o mundo tinha desabado sobre um simples banco, que, por coincidência, tinha de ser eu…

Parecia que o amor, afinal, não é algo assim tão simples de entender como eu pensava…

Parecia que, afinal, nada nesta vida é por acaso…

Parecia que tudo não passava de parecenças, e nada era a realidade…

Seria eu um simples banco de jardim que vivia apenas para agradar os outros?

Não passaram minutos, horas, dias, nem semanas… Passaram anos, e eu tornei-me invisível para todos os seres vivos que antes faziam parte dos meus dias. Tenho saudades das mulheres gordas que agora têm medo de vir ao parque, das crianças que agora se tornaram as pessoas dos retângulos luminosos, mas do que tenho mais saudades é do meu poeta do mar…

 

Ariana Moreira

publicado por escoladeescritores às 15:41

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