Bem-vindos. Neste blogue, têm lugar textos da autoria de membros da comunidade educativa da Escola Secundária de Vilela e apontamentos diversos sobre livros e literatura.

01
Fev 12

 

No romance Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco, publicado originalmente em 1862, o par de apaixonados é constituído por Teresa e Simão, mas há outra personagem feminina, Mariana, que permite completar o triângulo amoroso, porque ama secretamente Simão. Ninguém, senão ela, conhece essa paixão. Assim, no capítulo X, o único diálogo entre as duas mulheres constante no romance deve ser lido tendo em conta que elas são rivais no amor, mas só uma – Teresa – sabe disso. Para além desse «picante», é importante referir ainda que Mariana foi falar com a rival para lhe entregar uma carta de Simão.

No âmbito do estudo de Amor de Perdição na disciplina de Literatura Portuguesa, foi pedido aos alunos que escrevessem um diálogo alternativo entre Teresa e Simão, a partir da mesma frase de abertura. Publicamos hoje o texto camiliano, para, nas próximas semanas, serem editadas algumas das variações construídas em aula.

 

A voz de Mariana tremia, quando D. Teresa lhe perguntou quem era.

– Sou uma portadora desta carta para Vossa Excelência.

– É de Simão! – exclamou Teresa.

– Sim, minha senhora.

A reclusa leu convulsiva a carta duas vezes, e disse:

– Eu não posso escrever-lhe, que me roubaram o meu tinteiro, e ninguém me empresta um. Diga-lhe que vou de madrugada para o Convento de Monchique do Porto. Que se não aflija, porque eu sou sempre a mesma. Que não venha cá, porque isso seria inútil, e muito perigoso. Que vá ver-me ao Porto, que eu hei-de arranjar modo de lhe falar. Diga-lhe isto, sim?

– Sim, minha senhora.

– Não se esqueça, não? Vir cá, por modo nenhum. É impossível fugir, e vou muito acompanhada. Vai o meu primo Baltasar e as minhas primas, e meu pai, e não sei quantos criados de bagagem e das liteiras. Tirar-me no caminho é uma loucura com resultados funestos. Diga-lhe tudo, sim?

Joaquina disse fora da porta:

– Menina, olhe que a prioresa anda lá por dentro a procurá-la.

– Adeus, adeus – disse Teresa, sobressaltada. – Tome lá esta lembrança como prova de minha gratidão.

E tirou do dedo um anel de ouro, que ofereceu a Mariana.

– Não aceito, minha senhora.

– Porque não aceita?

– Porque não fiz algum favor a Vossa Excelência. A receber alguma paga há-de ser de quem me cá mandou. Fique com Deus, minha senhora, e oxalá seja feliz.

publicado por escoladeescritores às 12:25

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