Bem-vindos. Neste blogue, têm lugar textos da autoria de membros da comunidade educativa da Escola Secundária de Vilela e apontamentos diversos sobre livros e literatura.

29
Fev 12

 

Publicamos hoje a segunda alternativa ao diálogo camiliano de Teresa e Mariana inserido no capítulo X de Amor de Perdição. A autora desta nova versão de uma conversa entre duas rivais no amor é a Marisa Nogueira, do 11.º D. Esperamos que gostem.

 

A voz de Mariana tremia, quando Teresa lhe perguntou quem era.

– Quem eu sou?

Mas a postura de Mariana alterou-se ao ver diante de si tão bela mulher, a tal mulher. Deixou de parte o receio e o constrangimento que toda aquela situação lhe causava e, de forma pragmática, respondeu-lhe:

– Quem eu sou não interessa. O que importa é o que trago.

Ao entregar a carta a Teresa, os olhos de Mariana brilhavam de mágoa, de tristeza e, principalmente, de ciúme, sentimento que até então nunca experimentara de forma tão intensa. Mariana amava Simão, amava-o com todas as suas forças, amava-o sinceramente e de todo o coração, amava-o, e por ele faria tudo, mesmo que esse tudo fosse capaz de o fazer sofrer.

Raiva era agora o que Mariana sentia ao entregar a Teresa a carta que Simão escrevera, declarando-lhe todo o seu amor, e que, para Mariana, lhe deveria ser por mérito dirigida.

– É de Simão. Quer vir cá e tirar-me no caminho para o convento do Porto. Este homem doido e corajoso, que me irá salvar da escuridão da clausura, este homem que eu amo e com quem, finalmente, poderei passar a minha vida – suspirava embevecida Teresa.

– Mas o que diz, senhora? Tal coisa não é possível, não pode acontecer! Disse-me uma criada da casa de seu pai que a senhora vai acompanhada de seu primo Baltasar, de suas primas, de não sei quantos criados de bagagem e das liteiras. É impossível o que diz, é entregar Simão à morte! É isso que quer?

– Eu sei, meu pai mo disse – ripostou Teresa, tomando-se da realidade.

– E continua a querer tal loucura?

– Tem razão. Diga-lhe que o amo, que já nada se pode já fazer, pois irei para o convento e lá ficarei até ao fim dos meus dias, enclausurada, a sofrer dolorosamente a sua falta. Diga-lhe isto, sim?

Mariana não queria acreditar nas barbaridades que dizia a tal mulher.

– É esta a mulher que Simão ama? É esta a mulher, melhor, menina, por quem Simão era capaz de dar a sua vida? Mas quem estará doido? Simão por infortunadamente amar tal mulher, Teresa por querer tal coisa, ou eu por sofrer com o amor dos dois?

Mariana sofria, por amor, tal como Simão e, aparentemente, também Teresa. Mas a moça de feições belas não estava disposta a deixar o homem por quem tudo era capaz de fazer nas mãos daquela menina que, com aquela conversa, lhe parecia ter ainda muito que crescer. Lutará por ele, mesmo que para isso tenha que alterar (ligeiramente, claro) o recado que Teresa lhe mandara dar.

 

[Em cima: Fotograma do filme Amor de Perdição (1978), de Manoel de Oliveira.]

publicado por escoladeescritores às 10:35

08
Fev 12

 

Na sequência da entrada anterior, hoje publicamos o primeiro diálogo alternativo de Amor de Perdição, construído pela Joana Freire, do 11.º D, que imaginou um desenlace diferente do que foi proposto por Camilo Castelo Branco para o único encontro entre Teresa e Mariana, rivais no amor que sentiam por Simão Botelho. A primeira frase é do romancista, todas as outras resultaram da verve criativa da Joana Freire. Boa leitura.

 

A voz de Mariana tremia, quando D. Teresa lhe perguntou quem era.

– Sou Mariana, e trago-lhe um recado de Simão Botelho.

– Simão? Um recado? – interrogou Teresa.

– Sim, minha senhora, um recado que penso que não lhe vai agradar.

– Ai, meu Deus! O que é? Diga lá, que eu morro por saber novas daquele homem.

Mariana respirou fundo, como que a ganhar coragem para dar as supostas más notícias a Teresa.

– Muito bem. Eu sou a criada de Simão e este pediu-me que viesse até aqui para lhe dizer que… – Mariana suspirou de novo, fez uma pausa e retomou o discurso com firmeza – … que siga com o seu caminho e ele seguirá com o dele. Ele já não gosta mais de si. Este amor é impossível e de nada vos vale este sentimento que só mal vos trouxe. E foi isto que me trouxe cá. Esqueça Simão, o sofrimento chegou ao fim…

A fidalga ouvia o que dizia Mariana e não queria acreditar. Chorando compulsivamente, disse:

– Impossível! Não acredito em nada. Porque haveria de acreditar em si? E, mesmo que fosse verdade, eu não quero nem posso esquecer este amor. Esta ferida é incurável. Não é verdade, pois não? Diga a verdade.

Mariana comoveu-se e arrependeu-se do que tinha feito. O amor daqueles dois era indestrutível e nem o seu desespero desmedido podia fazer cessar um amor como aquele. Soluçando desesperadamente, Mariana disse:

– Desculpe! Desculpe, minha senhora! O amor que sinto por Simão possuiu-me. Não sei o que passou pela minha cabeça. Perdão! Tudo o que disse é mentira… Simão ama­‑a e não me mandou vir aqui dizer tudo isto…. Ele nunca a poderá esquecer. Ai, como eu gostava que ele me amasse assim! Peço-lhe mil perdões, a minha ousadia excedeu-se. Simão mandou-me aqui para lhe entregar esta carta cheia de juras de amor, que eu própria o vi a escrever!

Mariana tirou da algibeira um envelope e entregou-o a Teresa, que ainda estava com as lágrimas nos olhos e sem reação.

– Perdão, minha senhora!

Mariana levantou-se para se ir embora, Teresa agarrou-a pela mão, fazendo um gesto para lhe indicar que ficasse, e disse:

– Estás perdoada. Esta loucura foi fruto do amor, desse sentimento tão cruel. Esquece tudo que eu esquecerei também.

Mariana, de olhos postos no chão, levantou-se e saiu a correr, chorando compulsivamente. 

publicado por escoladeescritores às 09:12

01
Fev 12

 

No romance Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco, publicado originalmente em 1862, o par de apaixonados é constituído por Teresa e Simão, mas há outra personagem feminina, Mariana, que permite completar o triângulo amoroso, porque ama secretamente Simão. Ninguém, senão ela, conhece essa paixão. Assim, no capítulo X, o único diálogo entre as duas mulheres constante no romance deve ser lido tendo em conta que elas são rivais no amor, mas só uma – Teresa – sabe disso. Para além desse «picante», é importante referir ainda que Mariana foi falar com a rival para lhe entregar uma carta de Simão.

No âmbito do estudo de Amor de Perdição na disciplina de Literatura Portuguesa, foi pedido aos alunos que escrevessem um diálogo alternativo entre Teresa e Simão, a partir da mesma frase de abertura. Publicamos hoje o texto camiliano, para, nas próximas semanas, serem editadas algumas das variações construídas em aula.

 

A voz de Mariana tremia, quando D. Teresa lhe perguntou quem era.

– Sou uma portadora desta carta para Vossa Excelência.

– É de Simão! – exclamou Teresa.

– Sim, minha senhora.

A reclusa leu convulsiva a carta duas vezes, e disse:

– Eu não posso escrever-lhe, que me roubaram o meu tinteiro, e ninguém me empresta um. Diga-lhe que vou de madrugada para o Convento de Monchique do Porto. Que se não aflija, porque eu sou sempre a mesma. Que não venha cá, porque isso seria inútil, e muito perigoso. Que vá ver-me ao Porto, que eu hei-de arranjar modo de lhe falar. Diga-lhe isto, sim?

– Sim, minha senhora.

– Não se esqueça, não? Vir cá, por modo nenhum. É impossível fugir, e vou muito acompanhada. Vai o meu primo Baltasar e as minhas primas, e meu pai, e não sei quantos criados de bagagem e das liteiras. Tirar-me no caminho é uma loucura com resultados funestos. Diga-lhe tudo, sim?

Joaquina disse fora da porta:

– Menina, olhe que a prioresa anda lá por dentro a procurá-la.

– Adeus, adeus – disse Teresa, sobressaltada. – Tome lá esta lembrança como prova de minha gratidão.

E tirou do dedo um anel de ouro, que ofereceu a Mariana.

– Não aceito, minha senhora.

– Porque não aceita?

– Porque não fiz algum favor a Vossa Excelência. A receber alguma paga há-de ser de quem me cá mandou. Fique com Deus, minha senhora, e oxalá seja feliz.

publicado por escoladeescritores às 12:25

Fevereiro 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

12
13
14
15
16
17
18

19
20
21
22
23
24
25

26
27
28


subscrever feeds
mais sobre mim

ver perfil

seguir perfil

2 seguidores

pesquisar neste blog
 
Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

blogs SAPO